domingo, 10 de junho de 2012

FIT


O FIT começou. Pela 11ª vez desde aquela tarde maravilhosa de 1994 (um ano muito bom para mim) em que os franceses do “Genérique Vapeur” encantaram a cidade com sua performance de ocupação coletiva.  Depois dos percalços da edição de 2010 que esteve a ponto de não acontecer por problemas de ordem política, a versão 2011 está sendo apresentada como a maior já realizada até agora. Nós que além de amarmos o teatro fazemos dele nossa profissão, esperamos que sim.
Olhando para a grade apresentada pelos organizadores há de fato muita coisa interessante para conferir, como, por exemplo, os tchecos do Farm in the Cave que brilharam por aqui na edição de 2008. Da seleção local fiquei surpreso com certas escolhas. Não vou entrar no mérito da qualidade artística dos trabalhos escolhidos, mas sinceramente não vejo sentido em duas coisas: primeiro, por mais que estudiosos e pesquisadores afirmem que as fronteiras entre as artes estejam cada vez mais tênues a ponto de termos dificuldades em definir, por exemplo, o que seja o teatro na contemporaneidade, não consigo concordar com a seleção de espetáculos de um grupo de dança, mesmo por que a cidade tem tantos festivais específicos (circo, teatro de bonecos, teatro de objetos, dança, performance) que não vejo justificativa para se colocar tantos gatos no mesmo balaio. Em segundo lugar a escolha de espetáculos que não são novidade na cidade, que já estiveram em cartaz alguns anos atrás e que não participaram de edições do FIT próximas ao ano de seu lançamento. O que aconteceu? Dentre os inscritos para a edição atual não haviam espetáculos ou outras companhias com qualidade suficiente? Ressalva feita a “Romeu e Julieta” do Galpão, por que afinal é um dos melhores espetáculos já produzidos no estado e o grupo está fazendo 30 anos e se apresentou mais uma vez no palco do Globe Theatre, etc. Mas não é o caso de outros trabalhos escolhidos.
Fico pensando nos critérios quando vou assistir a um espetáculo como “Los Hijos Se Han Dormido”, do argentino Daniel Veronese que já esteve por aqui em edições passadas à frente do grupo Periférico de Objetos. O espetáculo apresentado é uma versão de gabinete do clássico “A Gaivota” de Tchecov. Na montagem apresentada  não temos um desenho de luz, mas tão somente uma mesma geral branca,  um cenário beirando ao tosco – uma simples sala com três entradas, figurinos simples parecendo roupas do dia a dia que cada ator levou para o palco, nem trilha musical. Também não havia uma direção espetaculosa, nem tampouco uma teatralidade que saltasse aos olhos e, como estamos em um festival, o espetáculo parece se ressentir de não ter um conceito. O incômodo foi imediato. Dezenas de pessoas (mal educadas na minha modesta opinião) abandonaram o barco antes que ele pudesse atracar. Tudo bem. Um espetáculo tão pobre de recursos cênicos e ainda por cima falado em espanhol e com legendas projetadas acima da platéia, é demais.
Comentário que ouvi depois da apresentação: fosse montado por alguém de BH teria sido execrado. Certamente. Ou não, quem sabe?
O que vimos no palco do Grande Teatro do Palácio das Artes ontem foi uma exibição de técnica de atuação naturalista. Quase atuação para televisão ou cinema. O que me impressionou (e por isso gostei do espetáculo – minha eterna vocação de nadar contra a corrente) foi a consistência do trabalho dos atores expressa pela palavra bem falada (apesar de entedermos pouco a língua – o que é um pecado cultural – conseguimos identificar sua musicalidade), na construção das pequenas ações, no estar apenas olhando por uma janela e esse apenas olhar pela janela nos prende a atenção, nos corpos bem colocados em cena, sem exageros. Para mim foi uma atuação primorosa. Nada de cotovelo direito no céu da boca, nem palavras desconexas expressando a angústia contemporânea (em minha opinião expressando muitas as vezes a falta do que dizer). Já ouvi muita gente boa falar que teatro se faz com ator e texto (se bem que nesse último quesito há muitos que torcem o nariz) e quando aparece um espetáculo que é tão somente ator e texto as pessoas não gostam.
Meu amigo Tinho que mora no Rio já me disse que essa é meio que uma moda por lá. Uma atuação mais televisiva ou tendendo mais para o cinema. Pensei também em Eduardo Tolentino e em seu Grupo Tapa de onde saiu a premiada atriz Sandra Corveloni ( Palma de Ouro em Cannes por Linha de Passe). Eles certamente não teriam vez em BH. Diz a lenda que quando mestre Grotowski esteve em Pindorama assistiu espetáculos de vários grupos locais e que o que ele mais gostou foi do trabalho do Tapa. Enfim.
Voltando ao comentário ouvido à saída do teatro: foi o que me fez, mais uma vez, pensar nos critérios de escolha, na política do festival. Com certeza, se o espetáculo fosse local passaria bem longe do FIT como outros que se aproximam levemente da estética proposta por Veronese de fato passaram. Fico pensando em dois pesos e duas medidas. O que dizer?
Sei que gostei de ter visto apesar de ter tido dificuldades de me concentrar. Tudo bem que o Grande Teatro é uma sala que possa conter muita poeira, ácaros e mofo e que, por estarmos em junho, temos uma propensão maior a ter problemas respiratórios, etc. Mas o ambiente ontem estava mais para sanatório de tuberculosos do que para teatro. Meu amigo João ponderou que isso poderia ser uma reação da plateia ao próprio espetáculo. Pode mesmo, mas a orquestra de tosses começou tão logo as luzes se apagaram...
Legal também foi ter visto ao ótimo “Sua incelença, Ricardo III”, da companhia potiguar Clows de Shakespeare. Com direção de Gabriel Vilela, o trabalho parece ser uma verdadeira versão nordestina de “Romeu e Julieta” do Galpão. Não chega a ter a mesma poesia que o modelo mineiro, mas isso a meu ver se deve muito mais ao texto que é radicalmente diferente e também ao fato de o Galpão ter atores bem mais maduros. Um belo e inspirador trabalho.
Ponto de encontro: uma vez mais é no Parque Municipal. Eu continuo preferindo os bares tradicionais, ou seja, a minha velha Cantina do Lucas de guerra. Não curto bares da moda, a não ser que o bar da moda seja realmente um bom bar o que se traduz por cerveja gelada, boa comida, preços razoáveis e atendimento de primeira. Gosto de ir a um bar, sentar, beber e conversar. Ir a um lugar somente para ser visto como pessoa descolada não faz a minha cabeça. Mesmo por que o ponto de encontro sempre me pareceu uma quermesse Cult.

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