O FIT começou. Pela 11ª vez
desde aquela tarde maravilhosa de 1994 (um ano muito bom para mim) em que os
franceses do “Genérique Vapeur” encantaram a cidade com sua performance de
ocupação coletiva. Depois dos percalços
da edição de 2010 que esteve a ponto de não acontecer por problemas de ordem
política, a versão 2011 está sendo apresentada como a maior já realizada até
agora. Nós que além de amarmos o teatro fazemos dele nossa profissão, esperamos
que sim.
Olhando para a grade apresentada
pelos organizadores há de fato muita coisa interessante para conferir, como,
por exemplo, os tchecos do Farm in the Cave que brilharam por aqui na edição de
2008. Da seleção local fiquei surpreso com certas escolhas. Não vou entrar no
mérito da qualidade artística dos trabalhos escolhidos, mas sinceramente não vejo sentido
em duas coisas: primeiro, por mais que estudiosos e pesquisadores afirmem que
as fronteiras entre as artes estejam cada vez mais tênues a ponto de termos
dificuldades em definir, por exemplo, o que seja o teatro na contemporaneidade, não consigo concordar com a seleção de espetáculos de um grupo de
dança, mesmo por que a cidade tem tantos festivais específicos (circo, teatro
de bonecos, teatro de objetos, dança, performance) que não vejo justificativa para se
colocar tantos gatos no mesmo balaio. Em segundo lugar a escolha de
espetáculos que não são novidade na cidade, que já estiveram em cartaz alguns
anos atrás e que não participaram de edições do FIT próximas ao ano de seu
lançamento. O que aconteceu? Dentre os inscritos para a edição atual não haviam
espetáculos ou outras companhias com qualidade suficiente? Ressalva feita a “Romeu
e Julieta” do Galpão, por que afinal é um dos melhores espetáculos já
produzidos no estado e o grupo está fazendo 30 anos e se apresentou mais uma
vez no palco do Globe Theatre, etc. Mas não é o caso de outros trabalhos
escolhidos.
Fico pensando nos critérios
quando vou assistir a um espetáculo como “Los Hijos Se Han Dormido”, do
argentino Daniel Veronese que já esteve por aqui em edições passadas à frente
do grupo Periférico de Objetos. O espetáculo apresentado é uma versão de
gabinete do clássico “A Gaivota” de Tchecov. Na montagem apresentada não temos um desenho de luz, mas tão somente
uma mesma geral branca, um cenário
beirando ao tosco – uma simples sala com três entradas, figurinos simples
parecendo roupas do dia a dia que cada ator levou para o palco, nem trilha
musical. Também não havia uma direção espetaculosa, nem tampouco uma
teatralidade que saltasse aos olhos e, como estamos em um festival, o espetáculo
parece se ressentir de não ter um conceito. O incômodo foi imediato. Dezenas de
pessoas (mal educadas na minha modesta opinião) abandonaram o barco antes que
ele pudesse atracar. Tudo bem. Um espetáculo tão pobre de recursos cênicos e
ainda por cima falado em espanhol e com legendas projetadas acima da platéia, é demais.
Comentário que ouvi depois da apresentação: fosse montado por alguém de BH teria sido execrado. Certamente. Ou
não, quem sabe?
O que vimos no palco do Grande
Teatro do Palácio das Artes ontem foi uma exibição de técnica de atuação
naturalista. Quase atuação para televisão ou cinema. O que me impressionou (e
por isso gostei do espetáculo – minha eterna vocação de nadar contra a
corrente) foi a consistência do trabalho dos atores expressa pela palavra bem falada
(apesar de entedermos pouco a língua – o que é um pecado cultural – conseguimos
identificar sua musicalidade), na construção das pequenas ações, no estar
apenas olhando por uma janela e esse apenas olhar pela janela nos prende a
atenção, nos corpos bem colocados em cena, sem exageros. Para mim foi uma
atuação primorosa. Nada de cotovelo direito no céu da boca, nem palavras
desconexas expressando a angústia contemporânea (em minha opinião expressando muitas as vezes a
falta do que dizer). Já ouvi muita gente boa falar que teatro se faz com ator e
texto (se bem que nesse último quesito há muitos que torcem o nariz) e
quando aparece um espetáculo que é tão somente ator e texto as pessoas não
gostam.
Meu amigo Tinho que mora no Rio
já me disse que essa é meio que uma moda por lá. Uma atuação mais televisiva ou
tendendo mais para o cinema. Pensei também em Eduardo Tolentino e em seu Grupo
Tapa de onde saiu a premiada atriz Sandra Corveloni ( Palma de Ouro em Cannes
por Linha de Passe). Eles certamente não teriam vez em BH. Diz a lenda que
quando mestre Grotowski esteve em Pindorama assistiu espetáculos de vários grupos
locais e que o que ele mais gostou foi do trabalho do Tapa. Enfim.
Voltando ao comentário ouvido à
saída do teatro: foi o que me fez, mais uma vez, pensar nos critérios de
escolha, na política do festival. Com certeza, se o espetáculo fosse local
passaria bem longe do FIT como outros que se aproximam levemente da estética
proposta por Veronese de fato passaram. Fico pensando em dois pesos e duas
medidas. O que dizer?
Sei que gostei de ter visto
apesar de ter tido dificuldades de me concentrar. Tudo bem que o Grande Teatro
é uma sala que possa conter muita poeira, ácaros e mofo e que, por estarmos em junho,
temos uma propensão maior a ter problemas respiratórios, etc. Mas o ambiente
ontem estava mais para sanatório de tuberculosos do que para teatro. Meu amigo
João ponderou que isso poderia ser uma reação da plateia ao próprio espetáculo. Pode mesmo, mas a orquestra de tosses começou tão logo as luzes
se apagaram...
Legal também foi ter visto ao ótimo
“Sua incelença, Ricardo III”, da companhia potiguar Clows de Shakespeare. Com
direção de Gabriel Vilela, o trabalho parece ser uma verdadeira versão nordestina de “Romeu e
Julieta” do Galpão. Não chega a ter a mesma poesia que o modelo mineiro, mas
isso a meu ver se deve muito mais ao texto que é radicalmente diferente e
também ao fato de o Galpão ter atores bem mais maduros. Um belo e inspirador
trabalho.
Ponto de encontro: uma vez mais é
no Parque Municipal. Eu continuo preferindo os bares tradicionais, ou seja, a
minha velha Cantina do Lucas de guerra. Não curto bares da moda, a não ser que
o bar da moda seja realmente um bom bar o que se traduz por cerveja gelada, boa
comida, preços razoáveis e atendimento de primeira. Gosto de ir a um bar, sentar, beber e conversar. Ir a um lugar somente para
ser visto como pessoa descolada não faz a minha cabeça. Mesmo por que o ponto
de encontro sempre me pareceu uma quermesse Cult.
Nenhum comentário:
Postar um comentário