quarta-feira, 11 de maio de 2011

O terrorista, o santo, o príncipe e sua esposa

Parece título de filme, mas não é. No mundo de hoje muita coisa aparenta ser o que não é, como numa antiga propaganda de xampu dos anos 80. Um mundo de simulacros. Yes, we can. A imprensa ávida por notícias que possa requentar por toda uma semana. O mundo precisa de novidades, mas o que há de novo sob o sol?
Primeira parada: o casamento do príncipe. No começo dos anos 80 todas as TVs do mundo pararam para transmitir o casamento do príncipe Charles com Lady Diana Spencer.  Na época soou como novidade. Tudo era um pouco novo naquele Brasil da abertura, até um casamento real transmitido ao vivo e a cores. Mas os tempos eram outros. O príncipe era o herdeiro do trono inglês e sua noiva possuía um carisma tão grande que logo, logo se transformou na principal estrela da monarquia britânica atraindo a simpatia de todos os que fazem o carnaval por lá: cantores, mulheres e bichas.  Tinha início a “Idade Mídia” (início para nós do tercer mundo), do culto globalizado das celebridades. Mas aquela bobagem toda era novidade para os tupiniquins. O casamento do príncipe William com Lady Kate quase trinta anos depois parece mais um arremedo, um remake de antigo sucesso de qualidade duvidosa, não obstante os esforços de toda a mídia em transformá-lo na grande notícia de semanas atrás com direito a transmissão direta desde a madrugada, comentaristas e uma pinta de ufanismo verde amarelo por saber que um dos vestidos do noivado da nova princesa foi confeccionado por um estilista do Brasil-sil-sil.
Um conto de fadas dirão muitos que se dispuseram a assistir toda essa papagaiada. De fato, parece que nessa nova fase da Idade Mídia todos temos direito a nossa dose diária de “disneyficação” da realidade (para usar uma expressão do cineasta alemão Werner Herzog na entrevista concedida à revista CULT, número 156). Estamos no limiar da terceira infância. Gostamos de ser tratados como crianças e todos temos direito a sonhar com um casamento de princesa, sapatinhos de cristal e a ouvir observações inteligentes como a “indignação” de certa comentarista com o fato de a família real brasileira (?) não ter sido convidada...  No conto inicial a princesa pop star morreu e o príncipe se casou com a bruxa. Resta-nos esperar pelo que vai acontecer com o atual. Pelo menos sabemos que eles agora finalmente saíram em lua de mel e essa notícia mudou totalmente a minha vida.
Compreensível que tal efeméride tenha importância no seu país de origem, a Inglaterra. País que, apesar de ainda se tratar de uma potência respeitável, não tem mais um décimo da importância que possuía em seus momentos de glória e tenha se transformado na província mais rica dos EUA. Incompreensível é a mídia nativa ecoar tal importância a ponto do diário belorizontino HOJE EM DIA tê-lo eleito como matéria de capa de seu caderno de cultura... É a imbecilidade ao alcance de todos.
Segunda parada: Praça São Pedro em Roma. De pop star para pop star aportamos na beatificação relâmpago de João Paulo II, um dos papas mais populares e mais marqueteiros da história. Lembro também que, no começo dos anos 80, ainda embriagados pelos rasgos de liberdade proporcionados pela revogação do AI-5 e pelo fim da Era Geisel, de sua primeira visita ao lado de baixo do equador. João Paulo II tinha um carisma inacreditável e sabia tirar proveito disso. Ele também foi um dos ícones de uma era (os anos 80 e 90) e viajou pelo mundo todo com sua mensagem de fé, para usar uma expressão tão cara aos católicos. Mas carisma à parte é inegável o ranço conservador de seu pontificado, o que ele representou de retrocesso para uma Igreja que se pretendia outra após o Concílio Vaticano II. Uma Igreja que se esforçava em fazer uma virada em favor dos menos favorecidos e que, com a eleição do papa polonês, voltou-se novamente para a direita e sob o argumento de combate ao comunismo se aliou ao que existia de pior no mundo daquele tempo: Reagan e Thatcher, numa verdadeira Internacional Conservadora que engendrou o neoliberalismo de tão triste lembrança.
Não vou me estender em João Paulo II. A propósito o jornalista Antônio Luiz M.C. Costa assina uma brilhante matéria sobre o assunto na edição 644 de Carta Capital, onde ilustra várias mazelas políticas que marcaram o pontificado do quase novo santo. Teologia do espetáculo. Um ótimo conceito para uma Igreja conspurcada por tantos crimes que ela insiste em não admitir, pois errados são sempre os outros. Se os evangélicos tem seus exorcismos e uma crença inabalável de que sua fé no sucesso remove montanhas, os católicos tem seus santos canonizados no varejo. Ambos, no entanto atendem às demandas de um mercado da fé onde o deus é outro e o que importa ao final das contas é sempre o marketing.
Terceira parada: Yes, we can. O slogan ecoou pelo mundo todo como uma brisa de esperança. Deu alento para a grande potência mergulhada numa crise econômica e moral sem precedentes. Elegeu seu primeiro presidente negro e de sobra, antes mesmo que ele mostrasse a que veio, lhe valeu o Prêmio Nobel da Paz (!). Com a popularidade em baixa, não conseguindo se contrapor a uma direita barulhenta e há pouco mais de um ano das eleições eis que o peacemaker bom moço caiu nos braços de seus mais ferrenhos adversários ao encontrar e matar o maior terrorista de todos os tempos fazendo justiça pela morte das quase três mil pessoas nos atentados de 11 de setembro de 2001. Bush Júnior não poderia ter feito melhor. O inimigo número 1 da América foi finalmente justiçado...
Ora o inimigo número 1 da América é sua própria política externa. Bin Laden foi um terrorista forjado nos porões da CIA para combater o inimigo soviético no Afeganistão, assim como Saddam Hussein havia sido mantido pelos EUA durante toda a década de 80 para combater o Irã. A mesma política externa que sempre sustentou a maior parte dos ditadores de direita no terceiro mundo.
A morte de Bin Laden veio acompanhada de todos os ingredientes que sempre nortearam a política externa do Tio Sam: tortura, desrespeito pela soberania de outro país, intransparência e mentiras. Muitos americanos comemoram, mas não perceberam o tiro no pé que lhes deu seu presidente. A vitória dos piores instintos. Ésquilo já havia nos mostrado na Oréstia a transformação da noção de vingança contida no antigo direito tribal no conceito de Justiça que é próprio da pólis. E isso em uma trilogia que tem mais de 2500 de idade. Obama nos fez regressar à idade do bronze, mas os falcões adoraram, a mídia babaca adorou, Hollywood adorou. Espere a versão cinematográfica estrelada por Bruce Willis. A disneyficação está completa. Uma monarquia decadente precisa do casamento de um príncipe, a uma igreja em descrédito convém um novo santo popular e um presidente em declínio precisa assumir as feições de seus adversários para salvar sua administração.
É isso aí.
Sempre há uma luz
Não sou fã do STF. Reconheço que admiro alguns de seus próceres como o ministro Joaquim Barbosa. Fiquei indignado com a votação da ficha limpa. Mas o reconhecimento legal da união estável entre pessoas do mesmo sexo foi show de bola. Um placar elástico: 10x0 me fez acreditar que nem tudo anda perdido. O Judiciário fez o que o Legislativo deveria ter feito, mas que por idiossincrasias de nossa terra natal se obstina em não fazer. Ganharam os homoafetivos que podem esperar a partir de agora ter uma vida mais normal dentro dos parâmetros de normalidade de nossa sociedade. Mas quem mais ganhou com isso foi a sociedade brasileira que afirma assim seu estatuto de estado laico não cedendo às pressões do lobby de certos grupos religiosos. Como muitos devem saber, o “fundamentalismo” sempre precisa de um demônio para chamar de seu e fiéis a esse preceito, muitos “religiosos” tem nos homossexuais seus adversários, a Geni que é boa de xingar e de cuspir. Como se a maneira de amar de alguns pudesse abalar os alicerces de uma crença que, pelo menos em princípio e para ser fiel às suas origens, deveria pregar como fundamental o amor ao próximo.
Como diz o poeta Beto Guedes no clássico “Amor de Índio”: Sim, todo amor é sagrado e remove as montanhas...”
Justiça seja feita há muitos setores da Igreja Progressista que se posicionam ao lado dos homoafetivos e, coisa de dois anos atrás, a Igreja Luterana da Suécia (majoritária no país) aprovou o casamento entre iguais.

Um comentário: