Fui assistir ao filme Rio. É uma divertida animação, olhares americanos à parte (o diretor é brasileiro). Enquanto a sessão não começava fiquei flanando pelo shopping e deparei com uma loja de roupas cuja propaganda estampava os dizeres em inglês: Nature needs heroes. Na foto um jovem se atirando em um precipício para salvar a mãe natureza de uma indesejável garrafa pet. Lembrei-me que já havia assistido ao comercial na TV. Comercial perfeito: jovem trajando jeans, natureza, texto em inglês... Sim, nossas lojas localizadas na zona sul assumiram a língua de Shakespeare como língua oficial. Não é raro nos depararmos com anúncios 40% OFF (liquidação) ou SALE. Faz sentido. Vivemos num mundo colonizad... Perdão, globalizado e nossas classes A e B certamente se sentem bem mais a vontade numa língua diversa da falada pela gente diferenciada.
Mas voltemos ao anúncio original. O informe publicitário dizia em bom português que os produtos da coleção em questão eram feitos com materiais recicláveis. Nada mal para nossa consciência de consumistas inveterados. Fiquei pensando nos heróis de que a natureza precisa.
Reciclar é preciso. Não é novidade para ninguém que a humanidade produz milhões de toneladas de lixo por ano. Não sei a cifra certa, mas sei que é muito grande. É ponto pacífico que não existem recursos suficientes no planeta em que vivemos para esse consumo alucinado em que nos lançamos nos últimos cem anos. Dentro dessa ótica qualquer linha de produtos reciclados é muito bem vinda.
Do mesmo modo que produzimos tanto lixo lançamos à atmosfera uma quantidade de gases que, segundo insuspeitos ambientalistas, estaria provocando o chamado efeito estufa responsável pelo aquecimento global. Anos atrás, o democrata americano Al Gore, candidato derrotado nas eleições presidenciais de 2000, produziu o premiado documentário “Uma Verdade Inconveniente” em que alerta sobre os efeitos do aquecimento global.
Tempos atrás também, camarada Danilovsky, colega dos tempos de jornalismo e doutorando em economia pela Unicamp, me dizia que todo esse papo de aquecimento global é balela e que, ao contrário, estaríamos vivendo o prenúncio de uma possível nova era glacial e não um aquecimento. Teoria conspiratória poderão pensar muitos. Mas o fato é há não muito tempo atrás, o climatologista Luiz Carlos Molion em entrevista ao programa Canal Livre da TV Bandeirantes disse coisas parecidas.
Sem nenhum embaraço o cientista afirmou que o CO2 não é o vilão que pensamos que ele seja. Pelo contrário, as plantas precisam do gás carbônico para viver e que a Terra passa por períodos de aquecimento e esfriamento regulares e se está em curso um processo de aquecimento do planeta ele não é necessariamente provocado pelo homem. Se é verdade que a Terra está se aquecendo, que os pólos estão derretendo e que com a subida dos mares cidades como Nova York e Rio de Janeiro irão simplesmente desaparecer sob as águas, por que Al Gore teria comprado a peso de ouro uma mansão à beira mar na Califórnia? Provocou o cientista.
O discurso sobre o aquecimento global seria então uma tentativa das potências industriais em frear o crescimento do terceiro mundo. Faz sentido. Já ouvi vários analistas dizerem que nos últimos dez anos os americanos ficaram tão obcecados em combater o terrorismo que teriam se esquecido de observar o desenvolvimento industrial de alguns países, China à frente. Lembremos também que os EUA não assinaram o protocolo de Kyoto.
Em determinado momento da entrevista, um jornalista perguntou sobre o gás CFC responsável pelo arrombamento da camada de ozônio. Luiz Carlos Molion disse que tal afirmativa não é verdadeira e que o problema do CFC era meramente econômico. Sua patente estava com os dias contatos. Iria cair em domínio público, ou seja, as empresas não teriam mais a necessidade de pagar royalties para utilizá-lo. Se existia alguma preocupação ambiental embutida na campanha contra o gás ela era certamente secundária. Nunca podemos perder de vista que vivemos num sistema capitalista e que o coração desse sistema responde pelo nome de lucro.
E o lucro muda de face. Especiarias, pau-brasil, cana de açúcar, ouro, manufaturas, minerais, programas de computador ou pensamento. Tudo é lucro. A sobrevivência do capitalismo reside em boa medida na sua capacidade de reciclar o que considera lucro e a propaganda é alma de seu negócio.
Nature needs heroes. Sim, a natureza precisa de heróis e consumir produtos feitos com material reciclado talvez apazigúe um pouco a nossa consciência. Como naquela fabula do homem que toda a manhã ia para a praia salvar as estrelas do mar perdidas devolvendo-as para o oceano. Se cada um fizer a sua parte...
Mas é que sou um chato e fico pensando até que ponto essa conversa não seja ao final das contas mais um golpe publicitário. Como disse linhas atrás, o capitalismo se recicla a tal ponto que consegue fazer da própria contestação ao sistema um objeto de lucro (até o estilo de vida hippie se transformou em algo consumível). Talvez o verdadeiro herói desejado pela natureza não seja o que consome artigos feitos de material reciclado, mas simplesmente o que diz não ao próprio consumo. Tarefa deveras difícil.
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