quarta-feira, 4 de maio de 2011

Notícias de Uberlândia 1


Estou em Uberlândia para participar do II Seminário Nacional de Pesquisa em Teatro dentro da programação da 3ª edição do Ruínas Circulares – Festival Latino Americano de Teatro. Na próxima sexta-feira, 06 de maio apresentarei uma comunicação intitulada: Escritas contemporâneas: a dramaturgia do diretor. Uma versão modificada das conclusões de minha tese de doutoramento que defenderei em junho. Posteriormente divulgarei a comunicação por inteiro nesse blog.
Dentro da programação do Festival tive a oportunidade de conferir ontem ao belíssimo espetáculo “Antígona”, produção do renomado grupo peruano Yuyachkani que, salvo engano, está fazendo 40 anos de atividades.
O espetáculo foi apresentado recentemente no ECUM como parte das homenagens ao grupo de Lima.
Ao contrário do alguns poderão pensar não se trata da montagem do clássico de Sófocles, mas de uma versão livre de José Watanabe.
O que é necessário para se fazer um grande espetáculo? Não estou falando de uma superprodução no estilo Broadway (gênero que parece fascinar cada dia mais não só alguns realizadores teatrais locais como boa parcela do público que consome teatro. A título de ilustração: aqui em Uberlândia há também empresas especializadas em organizar pacotes turísticos culturais para São Paulo para assistir aos musicais “made in Broadway” em cartaz). Para realizar grandes espetáculos assim é necessário, sobretudo dinheiro.
Estou falando de um grande espetáculo que nos emocione pela carga de seu texto e, sobretudo pelo trabalho de seus atores. Com relação ao texto, talvez seja um pouco difícil de imaginar por se tratar de uma obra apresentada em espanhol que, apesar da enorme familiaridade com nossa língua, não deixa de apresentar certas dificuldades de entendimento que talvez cansem um pouco o público mais ávido por compreensão.
Barreiras do texto a parte, “Antígona” do Yuyachkani é um grande espetáculo pela força de sua atriz protagonista, Teresa Ralli que se desdobra em cena fazendo todas as personagens da tragédia. Sim, trata-se de um monólogo. Um monólogo tão vigoroso quanto os que tivemos a oportunidade de ver em tempos recentes como “A Poltrona Escura” com Cacá Carvalho, “Fragmentos de Vidas Divididas”, com Norberto Presta ou “A Descoberta da América”, com Júlio Handrião.
O que se vê quando se chega ao teatro é apenas uma cadeira jogada sobre o chão e dois focos de luz. O palco totalmente aberto sem cenários ou coxias. Teresa Ralli consegue construir tudo manipulando apenas a cadeira e uma peça de seu figurino, uma capa que a auxilia nas transformações. Há também uma pequena caixa de madeira que ela só utiliza ao final do espetáculo numa cena de rara beleza. Tudo o mais é construído pelo corpo e pela voz da atriz que os manipula com maestria, num exemplo brilhante de como transformar as partituras de ações físico-vocais em movimentos graciosos e carregados de teatral dramaticidade. Tereza é Antígona, mas também é Creonte, Tirésias, um homem do povo, Hémon e a narradora do espetáculo que ao final se revela ser Ismênia, a irmã que não aceitou acompanhar Antígona em seu caminho de perdição e liberdade. Tereza Ralli consegue mesclar todo o peso da tragédia grega à leveza do balé. Sua Antígona é possuída por um frescor juvenil e doce tanto quanto seu Creonte é tomado pela tormenta do poder tirânico que representa.
Há também uma ótima trilha musical que pontua corretamente o espetáculo e um brilhante desenho de luz que transforma o palco vazio do Teatro Rondon Pacheco em qualquer lugar para onde sua fantasia o carregue, seja para o palácio real de Tebas, ou para a gruta onde Antígona é sepultada viva.
O Yuyachkani nos ministrou uma verdadeira aula de bom teatro contemporâneo: como revigorar os grandes clássicos e torná-los vivos para as audiências de hoje.
Por falar no Yuyachkani fiquei sabendo por intermédio do dramaturgo peruano radicado em São Paulo, José Manuel Lázaro (que conheci no Workshop com Eugênio Barba ano passado em Brasília) que o grupo fará um encontro entre os dias 25 de julho e 01 de agosto em Lima para mostrar todos os trabalhados desenvolvidos nos últimos dez anos. Uma boa oportunidade para um verdadeiro turismo cultural internacional.
Notas:
Tanto o Festival Ruínas Circulares quanto o Seminário Nacional de Pesquisa em Teatro são realizados pela Universidade Federal de Uberlândia. É natural que grande parte do público que compareceu ao Teatro Rondon Pacheco na noite de ontem fosse formado por alunos do curso superior de teatro. E alunos de teatro são alunos de teatro em qualquer lugar do mundo (penso eu). São performáticos, afetados e parecem querer chocar aos pobres mortais com visuais e comportamentos alternativos...
As cidades parecem sempre se referir umas as outras. Quando me mudei para o bairro onde moro atualmente em Belo Horizonte, tive a sensação de que a Praça José Cavalini tinha algo de carioca, algo que me remetesse a determinados quarteirões longe do mar de algum bairro como Glória ou Botafogo. Uberlândia me parece às vezes particularmente paulista. Andando por uma das ruas de seu centro me lembrei imediatamente da Rua Augusta de São Paulo com sua inclinação, suas lojas e alguns pequenos prédios. Tomando um refresco em um café da Praça Tubal Vilela, olhando para as árvores que dão para um estacionamento, me lembrei de imediato das árvores e do estacionamento da Igreja São José de Belo Horizonte.

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