domingo, 15 de maio de 2011

O Público

Título de um texto surrealista de Lorca que quase tivemos o desatino de montar quando alunos do CEFAR/Palácio das Artes lá pelo ano de 1994... Mas isso é uma outra história.
Mas o que gostaria de comentar aqui é a questão do público mesmo, do público de teatro essa esfinge difícil de decifrar. Desde que me entendo por ator ouço queixas e também me queixo de sua ausência nos espetáculos durante as temporadas normais ao longo do ano. A constatação mais óbvia é que o público de teatro de Belo Horizonte se concentra durante a Campanha de Popularização que, para muitos de seus críticos contribui para retirá-lo das salas de espetáculo durante o resto do ano, por que esse mesmo público estaria acostumado a só freqüentar o teatro nos meses de janeiro e fevereiro, etc.
Fico pensando até que ponto essa afirmação é válida. Certa vez ouvi Bosco Brasil (autor de Novas Diretrizes em Tempos de Paz) dizer em um debate na Sala João Ceschiatti que vivemos numa era de eventos. Os eventos sim atraem público. Vejam, por exemplo, o FIT. O Festival de Teatro de Belo Horizonte sempre foi um sucesso de público desde sua primeira edição. Mas será que podemos dizer que ele efetivamente forma público na cidade? Se ele forma então onde está esse público que não aparece durante o resto do ano?
 Ao compararmos um evento com outro temos que admitir que estamos falando de públicos diferentes. O público do Festival estaria em sintonia com determinado tipo de espetáculo mais investigativo ao passo que o público da Campanha seria eminentemente popular baseado no cardápio que é oferecido a ambos: no primeiro caso espetáculos que fazem pensar e no segundo comédias rasteiras que abusam do fator homossexual como elemento proporcionador do riso.
De fato, se olharmos a relação dos espetáculos apresentados na Campanha teremos pelo menos 60% de comédias que de quebra ocupam invariavelmente os dez primeiros lugares entre os espetáculos mais assistidos. Mas tal fato não é exclusividade de Belo Horizonte. O FRINGE, mostra paralela do prestigiado Festival de Teatro de Curitiba, também apresenta em sua grade de programação um grande número de peças do gênero. Na edição desse ano foram nada menos que 85 comédias vindas de todos os cantos do país.
Talvez o problema não seja propriamente a comédia em si (ou será que é?), mas o tipo de comédias que são apresentadas. De fato e falo isso por experiência, pois já fui membro da comissão do teatro adulto do prêmio Usiminas/Sinparc por dois anos consecutivos, existem muitas produções que são feitas a toque de caixa com o único objetivo de serem exibidas durante a Campanha, mas tais espetáculos não se tornaram sucessos de público. Alguns tiveram públicos razoáveis, mas sucessos...
Mas existem outros espetáculos que se apresentam na Campanha que não são comédias e dou dois exemplos que vivenciei esse ano: Fausto (s!) e Cuidado: Frágil! Ambos foram bem sucedidos. Obviamente dentro de uma outra realidade. Fausto(s!) teve praticamente todas as suas sessões esgotadas. Claro que foram apenas 6 funções dentro da Funarte que teve seu público limitado a 70 pessoas por sessão. Assim é fácil pensarão alguns. Mas na sala ao lado esteve em cartaz durante todo o mês de janeiro uma montagem paulistana de “Mão na Luva” que foi um fracasso de bilheteria, prova de que o público que freqüenta a Campanha também se interessa por outro tipo de espetáculo, mesmo que só uma fração desse público.
Voltando as comédias tendo a pensar que a grande implicância que muitos de seus críticos tem com o gênero dirigi-se ao riso em si, como se ele fosse algo imoral, feio ou politicamente incorreto. Não qualquer riso, claro. Mas o riso distribuído a farta nas comédias popularescas que são o grande motor da Campanha. O público, como dizem muitos, estaria sendo deseducado por esse tipo de espetáculo.  Talvez fosse necessário medir o impacto do teatro besteirol na formação de opinião do público médio de teatro e sua influência na educação, tarefa que deixo para sociólogos e educadores de plantão.
Me parece que as pessoas em geral não nascem indo ao teatro para ver o Espírito Baixou em Mim. Se há uma forma de comunicação que nos dias de hoje nos acompanha desde o mais tenro berço, ela é sem dúvida a televisão. Mas também apostar todas as fichas no papel educativo ou deseducativo da televisão seja um pouco injusto, pois estaríamos atribuindo um papel secundário aos pais e a escola. Talvez o problema do teatro seja realmente um problema de educação, mas da educação tomada no seu todo.
O cardápio oferecido ao público consumidor também influencia, lógico. Muitos objetarão que determinados artistas só montam comédias para ganhar dinheiro, só oferecem isso ao respeitável público. Sim e não. Esse texto não pretende ser uma defesa da Campanha de Popularização, deixo essa incumbência para o Sinparc, mas fico pensando até que ponto esse tipo de afirmação possa ser válido. Primeiro: qual o problema existente no fato de determinados artistas só se interessarem em montar comédias para ganhar dinheiro? Acaso não somos artistas de profissão e tentar tirar nosso sustento do que oferecemos ao público não é lícito? Segundo: acaso o público não tem liberdade de escolha ou devemos tomá-lo apenas como gado?
O que fazer, por exemplo, com um espetáculo como o Espírito Baixou em Mim? Trata-se de um fenômeno de público difícil de entender (e muito fácil de odiar). Sucesso absoluto na Campanha há pelo menos dez anos consecutivos vendendo quase sempre mais do dobro de ingressos que o segundo colocado. Conheço uma pessoa que o assiste todos os anos. A culpa então é do público, essa esfinge indecifrável?
Voltamos ao problema do começo desse texto. Por que o respeitável público não comparece com assiduidade durante todo o ano? Vários problemas são listados: baixa qualidade de muitas produções, falta de profissionalismo de muitos produtores, necessidade de repensar o posicionamento do produto teatro no mercado, salas de espetáculos precárias, violência urbana, concorrência de outros meios de entretenimento (cinema, televisão, internet), projetos bancados por grandes empresas que, por serem gratuitos, desestimulam a busca pelo ingresso pago, burocracia dos órgãos públicos, carência de verdadeiras políticas culturais, nossa natural inaptidão para ouvir críticas, enfim.
Mas temos o caso dos artistas que tem seu público cativo. Cito três exemplos: O Grupo Galpão, Carlos Nunes e a dupla Ílvio Amaral/Maurício Canguçu. Fui assistir ao espetáculo Tio Vânia no último dia 13 de maio e fiquei na lista de espera. O espetáculo está lotando todos os dias. Isso só para termos um exemplo. Existe um público fiel que acompanha esses artistas. Cabe a nós outros descobrirmos esse segredo e corrermos atrás.
Tenho para mim que o teatro deveria buscar um contato mais direto com o público, que ele se tornasse uma necessidade cultural da população (como por exemplo, o é a telenovela) e penso que uma solução para isso seria sair de nosso confortável limbo (penso que temos muitas dificuldades em enxergar para além dos limites da região centro - sul e das benesses proporcionadas pelas leis de incentivo) e procurasse ir onde o povo está.
Mas convém nesse caso ouvir primeiro o próprio público.

Nenhum comentário:

Postar um comentário