domingo, 15 de maio de 2011

Bravíssimo!!!

Sou ator e diretor de teatro e me orgulho disso. Isso não é novidade. Quando pensei nesse blog alguns colegas me cobraram que fizesse crítica teatral. Não sei. Acho complicado estar nos palcos e ao mesmo tempo criticar meus colegas. Uns acham que não. Eu continuo achando que sim. A crítica de teatro em Belo Horizonte acabou dizem muitos. Um ou outro crítico que se dispõe a ver e a tentar estabelecer um diálogo efetivo com a obra de arte (que deveria ser a função primeira do verdadeiro crítico), no mais acabou... Bem, concordo, mas ainda não estou disposto a fazer crítica. O que quero  deixar aqui é um depoimento.
Sou ator e diretor de teatro e me orgulho disso. Me orgulho sobremaneira por que o meu primeiro professor de teatro foi o ator Arildo Barros do Grupo Galpão e é sobre esse grupo que eu quero falar.
Elogiar o Galpão é redundante. Todos fazem isso. O Galpão estabeleceu um padrão de qualidade difícil de ser acompanhado por quem faz teatro em Minas Gerais. Não quer dizer que todos seus espetáculos sejam maravilhosos. Exigir a perfeição em cada obra é tarefa difícil até para o mais genial dos mortais. Mas não podemos negar que todas as suas produções têm uma qualidade que os diferencia.
Tudo isso para dizer como me senti tocado pela mais recente produção do grupo, o espetáculo “Tio Vânia (aos que vierem depois de nós)”. Tenho uma relação pessoal com o texto. Em 2008 tentei montá-lo com um nascente grupo que havia me convidado. Não deu certo. Tchékhov não é um autor fácil de ser abordado. Exige um entendimento profundo de seu texto, tarefa difícil para artistas pouco maduros.  Mas o processo não deslanchou por outros motivos, por questões de relacionamento entre os integrantes do grupo (também uma questão de maturidade), penso, porém que foi melhor não tê-lo montado.
Diz a lenda que Tchékhov zombava do caráter dramático que atribuíam às suas peças. Diz-se que ele as considerava comédias e não dramas. Sim, Tio Vânia é uma comédia, mas uma comédia amarga. E o Galpão soube lê-la magistralmente sob esse prisma. Não há tom formal nos atores. Todos flanam por seus personagens dando-lhes leveza e ao mesmo tempo a necessária densidade. Rimos de suas vidas absurdas para nos emocionarmos na cena seguinte com seus dramas.
 Por exemplo, temos o médico Astrov que abre a peça com reflexões sobre sua pessoa nos remete a um tom mais sóbrio e melancólico. Eduardo Moreira soube, porém dar-lhe um colorido mais despojado. Seu Astrov ri de si mesmo, não fica encarcerado numa melancolia fácil. Um tom presente em várias personagens. O ator Paulo André, que interpreta Teléguine (a montagem optou por fundir dois personagens existentes no original de Tchékhov, a baba e Teléguine, em um só personagem), é capaz de mostrar todo o dilema de seu personagem, seu passado, presente e futuro, numa simples caminhada. Na belíssima cena em que atravessa o palco recolhendo as bacias deixadas ao longo da casa durante a tempestade. Ele não diz uma palavra. Limita-se a caminhar e recolher as bacias e sabemos de tudo o que se passa e se passou com ele e tudo nos toca.
Muitas personagens que eram enigmáticas para mim quando tentei montar o texto, me pareceram absolutamente mais claras assistindo a montagem do Galpão. Helena por exemplo, a bela e sedutora mulher de Serebriákov, musa que desperta o desejo de Tio Vânia e Astrov. Numa montagem carioca dos anos 80 tal papel foi desempenhado por Cristiane Torlone. Podemos imaginar a partir disso qual o perfil da personagem. Fernanda Viana, no entanto nos mostrou uma Helena absolutamente leve. Não é uma diva inalcançável, mas uma mulher/menina que brinca, que dança, que sonha, que ri, enfim. Sua beleza emana da simplicidade. Na cena em que Helena e Sônia conversam, a enteada lhe pergunta: - Helena, você é feliz? Ao que ela responde: - É claro... Que não! E sua negativa é acompanhada por um riso gostoso que nos faz pensar o quanto não fazemos um desnecessário drama com nossos próprios sentimentos.
Não vou falar de todos os atores. Direi que não há interpretações destoantes, algo que nos tire o fôlego, mas inegável que Paulo André e Mariana Muniz nos tocam com mais veemência. Mas isso não é absolutamente necessário. Os sete atores formam um grupo coeso que funciona para o espetáculo. 
Não poderia deixar de falar dos cenários de Márcio Medina, da luz de Pedro Pederneiras e trilha sonora e música de Dr Morris e lógico, do brilhante trabalho de direção de Yara de Novaes. Para mim na há surpresa, Yara, uma grande atriz está se transformando a cada dia em uma grande diretora. Já havia percebido isso em Noites Brancas e depois em O Caminho Para Meca. Seu Tio Vânia é, sem dúvida, a grande coroação desse novo caminho.
Há espetáculos que com cinco minutos já sabemos se serão bons ou ruins.
E há espetáculos que com cinco minutos já nos dão a sensação de estarmos presenciando o desenrolar de uma verdadeira obra prima. É o caso de Tio Vânia para mim. Ele nos toca não porque tem um texto maravilhoso, mas porque o conjunto de atores e encenação revela o que de maravilhoso existe no texto.

4 comentários:

  1. Concordo com sua leitura e compartilho das mesmas sensações ao assistir Tio Vânia. Surpresa por encontrar "este" Galpão e também feliz. Profundamente tocada por Sônia e pelo doutor de Eduardo. Encantada por Fernanda, uma Diva sem tirar nem por. Atraída por uma Teuda irreconhecível e cúmplice de Tôninho e Paulo André em todo o espetáculo.

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  2. Fico feliz de que a mudança que este espetáculo gerou na minha forma de ver o mundo e de viver a vida tenha conseguido transcender e virar arte. Esse sempre foi o objetivo, transcender, encontrar com o público. Mas as palavras de todos os personagens do Tio Vânia conseguem, como disse Gorki, cravar um prego em nossas consciências. Que vida é esta que se desperdiça pelo passar do tempo? Pergunta antiga e, ao mesmo tempo tão atual. Assim são os clássicos, sobrevivem, são visionários...

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  3. Tragam prá cá, por favor, não aguento mais essa espera, lendo tudo isto!

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  4. Fico muito orgulhoso por ter um ex-aluno, em quem creio ter inoculado alguma dose do vírus do teatro, que não só se decidiu por fazer teatro, mas que também criou o hábito de pensar sobre essa arte fascinante. Agradeço a referência pessoal com que me distinguiu em seu comentário sobre o "Tio Vânia". Agradeço ainda o seu depoimento sobre o espetáculo, revelador de seu carinho com o grupo, mas que deixa também entrever um olhar criterioso, delicado e cheio de sutilezas.
    Um abraço pra você, Alexandre, do Arildo

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