terça-feira, 11 de outubro de 2011

Política

Volta e meia recebo e-mails e notícias sobre o movimento “Fora Lacerda”. Muitas vezes os leio com atenção. O fato é que o prefeito de Belo Horizonte conseguiu atrair para si toda a antipatia da classe artística da cidade, do pessoal do teatro em especial e a antipatia não é gratuita. Afinal, conforme exposto em artigo recente pelo meu ilustre ex-professor Marcelo Castilho de Avelar, a PBH tem desenvolvido no âmbito cultural da capital uma insistente política do “não”. A tentativa de cancelar o FIT ano passado, na contramão da lei, foi talvez a atitude mais evidente. Aliás, penso que se o desrespeito às leis parte do próprio governo (que deveria zelar por elas) já seria motivo suficiente para pleitearmos a revogação de tal governo, mas isso é outra história.
Não sei se o movimento “Fora Lacerda” consegue atingir outras praias além das povoadas por alguns setores da intelectualidade local, o que é realmente uma pena. Um amigo meu, que trabalha na prefeitura junto com comunidades de risco, me disse recentemente que com o fim das ideologias o que vale hoje em dia é uma política de resultados. Talvez ele tenha razão em parte. Não acredito que as ideologias tenham chegado ao fim e os motivos tentarei expô-los mais adiante, mas é bem provável que vivamos sob o império dos resultados e está aí a religião que não me deixa mentir.
Fala-se, por exemplo, de uma ruptura entre o prefeito e o seu vice, Roberto Carvalho, que é do PT e que o vice seria uma alternativa eleitoral à reeleição de Lacerda. Não penso assim. Independente do fato de prefeito e vice não se falarem (como já me disseram que ocorre) não sei se o PT é alternativa ao que está aí mesmo porque o que está aí é obra do próprio PT. Como todos sabemos, Márcio Lacerda foi eleito a partir de um acordo entre o PT e o PSDB e é pouco provável que tal aliança não se repita no próximo ano. Há gente que diga que o acordo já foi fechado.  Se o vice está se colocando como alternativa ou se está sendo colocado por alguém para mim é chute, balão de ensaio e não alternativa real.
Desde a metade dos anos 90, para ser mais exato, desde a eleição de Célio de Castro em 1996 que venho falando para alguns amigos que a forma como fazemos política está falida. Falo tanto de política partidária quanto de política sindical. Penso que a forma “partido político” está esgotada e a forma sindicato também. Falando assim parece que estou proferindo uma heresia, mas qual não foi minha surpresa ao ler semana passada um artigo do filósofo Vladimir Safatle afirmando quase as mesmas coisas. O que ocorre é que os partidos políticos não conseguem captar a dinâmica da sociedade, não conseguem se transformar em canais que expressem esse emaranhado de desejos desse ser amorfo que chamamos de povo.  Exemplo disso são os indignados na Europa e agora os que protestam contra o mundo das finanças nos EUA.
O apregoado fim das ideologias parece ter nos deixado num sério impasse. Elegemos partidos que tradicionalmente se colocaram no campo que se convencionou chamar de esquerda, o que não deixa de ter suas implicações e não apenas na ordem do discurso. Mas o que de fato ocorre é que no mundo da política real antigas bandeiras são deixadas de lado e passamos a exercer a política econômica que criticávamos quando estávamos na oposição. Parece que no mundo real existe algo que não pode e não deve ser tocado de forma alguma, o mundo ordenado por esse deus monetário. Vejamos a crise econômica atual. As soluções para o saneamento de tal crise nunca passam por um questionamento sobre o que levou o mundo a esse estado de coisas, mas quem paga o pato são sempre os mesmos e com a conivência da chamada esquerda. A banca não pode perder nunca.
E se é assim então o que diferenciam os partidos políticos? Se na hora da verdade o PT acaba se comportando como o PMDB ou como os tucanos, por que votar nele? E se não há diferenças substanciais entre os partidos políticos (a não ser o discurso) e esses partidos não conseguem defender as nossas demandas (que são muitas) então não seria a hora de repensarmos esse modelo?
Não sei se os insatisfeitos da Europa pensam assim. Por lá a desconfiança com os partidos é antiga. Em maio de 1968, não sem vacilar, o PC francês e também os trotskistas se dispuseram a marchar ao lado dos estudantes, mas foram rechaçados. “Vocês só querem o poder” teria sido a frase dita. Sim, é verdade. Vemos isso em nosso dia a dia no movimento estudantil e no sindical que estão mais ao nosso alcance. Nos protestos contra a corrupção do dia 7 de setembro os partidos políticos também foram hostilizados em Brasília. Talvez por que o movimento anticorrupção mire apenas a classe política o que é um equívoco, mas talvez porque também já esteja aflorando a sensação de que esses partidos de discurso não nos representam.
Não sei o que colocar no lugar dos partidos. Essa pergunta sempre surge quando coloco a questão da falência partidária. Partindo do pressuposto de que a democracia é o melhor regime que conseguimos inventar até agora, acredito que ruim com os partidos, pior sem eles. Mas o fato é que precisamos urgentemente pensar em outras alternativas de organização, daí meu palpite de que as ideologias ainda não chegaram ao fim, longe disto.
E voltando ao quadro político de Belo Horizonte penso que necessitamos com urgência de pensar em alguma alternativa para as eleições municipais do ano que vem. O que será ou como será eu honestamente não sei. Mas o que se apresenta por aí é sempre a mesma coisa e dessa mesma coisa estamos fartos, não é mesmo?

Um comentário:

  1. Você tem toda razão, Alex. Não tenho idéia de quem será meu candidato na próxima eleição e muito menos em qual partido apoiar. Não temos mais clareza absoluta sobre os ideais partidários... Não consigo enxergar um lider que nos represente como necessitamos...

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