segunda-feira, 14 de maio de 2018

Um Pouco de Ar, Por Favor


Um pouco de ar, por favor. Sim, estamos precisando de um pouco de ar. Aliás, de um pouco de ar não, de muito ar, muito ar mesmo. Ar fresco, ar renovado, ar puro. O mundo cheira mal, há um cano de esgoto aberto na minha sala (é a TV), outro no meu quarto (a internet?) e tudo cheira mal, muito mal mesmo. A saída? Cadê a saída? E se a saída é invisível que venha então um pouco de ar por favor. O ar aqui dentro está pesado? Que opressão é essa que eu sinto? Essa opressão me liga a um homem do passado, dos anos 30, por exemplo? Um funcionário de banco sem muitas ambições? Ou uma mulher que passou a vida inteira atrás de um balcão de farmácia, que foi apaixonada pelo patrão, que poderia ter se casado com ele, mas...E que trinta anos depois está prestes a ser demitida pelo filho dele, o filho que poderia ser o filho dela se aquela promessa de amor se consumisse. 

A falta de ar é eterna, ela atravessa o tempo, as gerações. Ela pode ganhar novos contornos, novos limites, como a da mulher que se perdeu da amiga. Mas continua a mesma. Ela é inerente a condição humana. Se para Schopenhauer, o homem é um ser de desejo e o desejo nos conduz a infelicidade. As personagens de  Um pouco de ar, por favor parecem sofrer exatamente do contrário. Não é o desejo que as conduz à infelicidade, mas a falta dele ou a falta de forças para lutar pelo seu desejo. Daí a falta de ar advir talvez muito mais de uma indecisão, de uma fraqueza da existência do que de uma luta desenfreada pela felicidade.

Um pouco de ar, por favor é o mais recente espetáculo da Cia Pierrot Lunar que está completando 25 anos de estrada. Um caminho pontuado por espetáculos que sempre tentaram unir espontaneidade, musicalidade e pesquisa, sem medo de errar. Os conheci no CEFAR quando estudamos teatro, fui calouro da turma deles e aquela turma sempre despertou em mim uma “inveja” positiva. Era uma turma muito alegre e musical. E talentosa também. Uma turma com cara de turma, com união de turma. O exato oposto da minha turma. Muita gente boa saiu dali. Depois da formatura quase toda a turma permaneceu junta e montaram um belo espetáculo que ocupou a antiga sede da Escola Guignard (hoje uma das galerias do Palácio das Artes), Alice, com direção de Fernando Mencarelli. Da turma original, no entanto, ficaram apenas Leo Quintão e Neise Neves que comandam a Cia e o espaço que mantém na Floresta. A eles juntou-se Jussara Fernandino que também havia sido da turma original.

Na linha de pesquisa desenvolvida pela Cia, Um pouco de ar, por favor talvez inaugure um novo momento da companhia. Um momento de reflexão sobre o que o grupo fez no passado e projete para o futuro.  O texto é assinado por Luiz Alberto Abreu (a definir o que significa provocador dramatúrgico, incumbência que coube a Vinícius Souza) e coloca em cena três atores que discutem o presente, o próprio ofício de artista. Estamos na era da confissão.  Artistas falam de suas vidas no palco, usam a experiência de suas trajetórias para discutir o sentido da profissão, o sentido próprio da vida e do mundo. O mais recente espetáculo de Denise Stoklos faz o mesmo. As vezes essa “confissão” do artista aponta para coisas interessantes. É preciso ser autocrítico e repensar sua própria trajetória como parte de uma discussão sobre como mudar o mundo. Às vezes é puro narcisismo. Em Um pouco de ar, por favor não chega a ser uma autocrítica rumo a uma mudança de postura frente ao mundo, mas tampouco é exercício narcisista. Em todo caso, os atores tiram bom proveito do que lhes é proposto. 

O espetáculo é engraçado, ágil e tem belos momentos. Há duas linhas narrativas que se entrecruzam. A primeira é a dos atores que falam de si e a segunda é a das personagens: um bancário dos anos 30, uma mulher nos anos 80 e outra mulher nos tempos atuais. Personagens que buscam um sentido para sua existência, que se esbarram num presente imaginário e que pouco a pouco se descobrem personagens no melhor estilo pirandelliano. A direção é de Chico Pelúcio, um dos integrantes do Grupo Galpão, mas que já dirigiu espetáculos de outros grupos, como o delicioso Opereta, o homem que falava português, com o qual ganhou os prêmios SESC/Sated e Sinparc de melhor direção em 1999.

Luiz Alberto Abreu também dispensa apresentações. É um dos mais ativos dramaturgos brasileiros e coordenou, no princípio dos anos 2000 o oficinão de dramaturgia. É dele a dramaturgia final de Caixa Postal 1500, segunda montagem do Oficinão do Galpão (saudades do velho Oficinão). Talvez o tom excessivamente leve da abordagem dramatúrgica ou da direção, faz com que o espetáculo fique um pouco na superfície sem se aprofundar muito nos dramas que propõe (afinal temos que pelo menos tentar dar uma resposta a esse anseio por mais ar, por favor), optando mais por um jogo cênico que privilegia o cômico das situações, cômico que, como já disse, os atores sabem tirar proveito.

O espetáculo estreou e cumpriu sua temporada inicial no teatro 2 do CCBB. Vamos esperar para vê-lo agora num espaço bem mais intimista que é o que a trupe mantém na Floresta.

Também esteve em cartaz no CCBB o espetáculo Que venha a primavera – Páginas tchecovianas. Havia um clima de expectativa quanto a este espetáculo. Direção de Hélio Zolini que também assina a adaptação e a dramaturgia e a atuação de Mário César Camargo ao lado das atrizes Juliana Martins e Raquel Albergaria, que retorna aos palcos depois de muito tempo afastada. Tchecov é daqueles autores cujo trato é difícil e que exige muita compreensão dos atores que se aventuram em interpretá-lo. Um autor em cujas obras praticamente nada acontece. A ação é muito mais interior, é mais um estado de alma. Tchecov é um autor do desencanto, o mundo do triunfo capitalista do final do século XIX e começo do século XX, encontra nele um crítico mordaz. Não há grandeza humana, não há vitória sobre a natureza. O que há é tristeza e melancolia. O humor de seu texto parece ser um presságio sobre o que estava por vir pouco tempo depois de sua morte: a grande guerra, a revolução, a ditadura, o desespero. (Estamos precisando de um Tchecov contemporâneo ou será que ele já surgiu e ainda não percebemos). 

E a montagem capta exatamente esse humor tchecoviano na cena que abre o espetáculo. Os três atores estão dispostos em três círculos distintos dentro de um outro círculo, em situações que evocam um clima de guerra e abandono. Uma cena que conjuga dança e teatro, de uma vivacidade que impressiona e incomoda. O problema é que depois de um prólogo brilhante, entramos em dois outros níveis narrativos que parecem não se comunicar entre si e nem com o prólogo nos dando a impressão de serem três espetáculos distintos. Na segunda parte do espetáculo eles são atores se preparando para entrar em cena e na terceira há a apresentação do conto “A Corista”. Há uma diferença de abordagem e uma diferença de energia. A cena dos atores nos bastidores me pareceu ser apenas uma transição para a apresentação do conto “A Corista” e os atores me deram a impressão de não dar muita atenção a ela. 

A cena da corista nos apresenta uma dramaturgia mais coesa o que é um ponto positivo. O problema da cena é que ela tem um ritmo bem mais lento (destoando das outras duas cenas) se prolongando mais que o necessário. Como se a direção tentasse entrar no universo tchecoviano por uma via mais contemplativa, fazendo do ritmo mais lento um retrato dos estados de alma das personagens. Não deixa de ser uma proposta interessante, mas a execução acabou nos passando a sensação de que o espetáculo tinha ali uma grande barriga (para usar o jargão teatral) o que acabou cansando um pouco a assistência. Do trio de atuação Juliana Martins é a atriz que melhor tira proveito das situações propostas nos brindando com uma bela composição de sua corista. O espetáculo tem também uma bela luz e uma trilha musical bem interessante.  Uma boa proposta sem dúvida, mas que talvez precise de um pouco mais de tempo para amadurecer.

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