Durrenmatt não acredita na humanidade
Uma
cidade arruinada economicamente. As poucas fábricas que existiam fecharam, o
comércio regrediu, o desemprego grassa. Não, não é uma fábula sobre o Brasil
pós golpe. Essa é a situação de Gullen,
cidadezinha perdida no interior da Suíça. Outrora três ou quatro expressos
paravam em sua estação antes de seguirem caminho para as principais cidades
européias. Hoje os trens passam direto e só servem para marcar a passagem do
tempo. Gullen vai de mal a pior a não ser que... A não ser que uma ilustre
filha da cidade, Claire Waescher, ou melhor, Claire Zahanassian,
multimilionária dona da Armenian Oil salve a cidade da bancarrota total. Claire
saiu de Gullen aos dezessete anos. Trinta anos depois retorna coberta de ouro
para orgulho de uma cidade em decadência. O trem que não parava mais por ali
faz uma parada obrigatória e a grande milionária desce acompanhada por seu
séquito. A cidade natal a recebe com banda de música, com faixas e cartazes.
Todos os notáveis estão presentes: o prefeito, o padre, o professor, o médico e
o ex-namorado. Então, no banquete que é oferecido em sua homenagem, Claire
Zahanassian anuncia que doará um bilhão para a cidade sendo metade desse valor
para os habitantes de Gullen. Mas há uma condição. Ela quer a morte de Alfred
Schill, seu ex-namorado, pivô dos infortúnios que a lançaram no mundo, que a
transformaram em prostituta (foi como prostituta que ela conheceu o velho
Zahanassian que lhe transmitiu a fortuna). Num primeiro momento os grandes da
cidade recuam horrorizados, mas ao longo do tempo todos cedem à tentação do
dinheiro que virá e a cidade entra num vórtice de consumismo que atinge a
todos, inclusive aos familiares de Alfred Schill e o resultado.... Bem, não é
preciso dizer, é?
Esse
é o enredo básico de “A Visita da Velha Senhora”, texto escrito pelo dramaturgo
suíço Friedrich Durrenmatt (1921-1990) em 1956. E apesar da distância no tempo
(62 anos) como permanece atual. O que o torna um clássico. Durrenmatt iniciou
sua carreira teatral nos anos 40 escrevendo sketches para shows em cabarés e
para o radioteatro que na época era muito respeitado na Suíça. Sua primeira
peça, “Está Escrito”, obra de 1947, não obteve sucesso. Ele escreveria outros
textos com maior ou menor impacto até a “A Visita da Velha Senhora” que é sua
obra capital. O final dos anos 40 e os anos 50 foram marcados na Europa pelo aparecimento
do teatro do absurdo (ou teatro existencialista como preferem alguns), cujos
maiores expoentes foram Eugene Ionesco e Samuel Beckett, e pela descoberta do
teatro de Brecht (cuja excursão à França no começo dos anos 50 provocou um
verdadeiro terremoto). Mas onde situar Durrenmatt (se é que ele tem que ser
situado em algum lugar)? Uma rápida olhada por sua obra nos levaria a crer que
ele seria um discípulo de Brecht. Sim, sua obra revela várias influências da
dramaturgia brechtiana, mas ao contrário do bardo alemão, Durrenmatt não é
otimista. O teatro não serve aqui para uma transformação da consciência rumo à
luta por um mundo mais justo. O que sobra ao fim da peça é um gosto amargo na
boca. O que Durrenmatt faz é nos mostrar num triste espelho o horror de nossa
solidão, de nossa condição de filhos de Caim. A Vida é dura, é como uma corda
bamba estendida sobre um abismo e não há rede de segurança lá abaixo. Curioso
que essa percepção amarga da existência venha de um filho de pastor protestante
(o filósofo pessimista Emil Cioran também era filho de um padre ortodoxo).
O
espetáculo dirigido por Luiz Villaça tendo no elenco Denise Fraga e Tuca
Andrada não decepciona, pelo contrário. É uma lufada de ar puro em tempos tão
empestados, ou como disse Fraga ao final do espetáculo: Esses tempos esquisitos
que vivemos. Experimente trocar as personagens do enredo por outras da política
nacional sem se esquecer de substituir a doação de um bilhão pela disputa pelo
pré-sal para entender a importância do espetáculo nos dias atuais.
A
montagem de Villaça revela toda a verve amarga de Durrenmatt dispondo em justa
medida os elementos cômicos e trágicos, sem olvidar do lado brechtiano do texto
revelado no uso da música, no envolvimento da plateia que é tomada ora como
testemunha, ora como partícipe da “farsa de Gullen”, dos cenários não
naturalistas, da presença quase contínua de toda a trupe em cena mesmo quando
não participam diretamente da ação. Denise Fraga e Tuca Andrada se destacam.
Fraga nos dá uma deliciosa Clara Zahanassian, uma mulher trágica que não perde
o senso de humor, que sabe rir do próprio destino. Destino que ela própria,
aliás, forja como uma moira. Claro que ela ri do alto de sua fortuna, do
dinheiro que a permite transformar o mundo em um bordel. Mas que bordel é esse?
Ao realizar o velho sonho de se casar na igrejinha de Gullen (com seu nono
marido) e de levar consigo o cadáver de Alfred Schill como o grande troféu de
sua vingança ela obtém grande satisfação. Mas não há felicidade. Seu ato visa
destruir o passado, mas qual futuro constrói com isso? Transformar o mundo em
um bordel por força do seu dinheiro não a torna menos desgraçada que os outros
reles mortais, pelo contrário, a iguala ao mais desprezível de seus carrascos.
A felicidade é impossível quando a mola de tudo é o ressentimento e a vingança
não repara o passado, mas compromete o futuro.
O riso de Clara Zahanassian no final das contas é um riso triste,
amargo.
É o riso da solidão que ela sabe ser irreparável. Ela destrói Alfred Schill, seu primeiro grande amor, e mesmo que leve consigo seu cadáver para enterrá-lo num mausoléu em seu palácio, não o terá nunca. A vingança é sempre uma vitória de Pirro. E Denise Fraga sabe como mostrar esse riso amargo e triste que ela exibe como uma máscara clownesca. Tuca Andrada também nos apresenta um Schill humano, profundo, um homem que ao longo da peça desperta para o mal que fez no passado e para o medo do futuro. Futuro que para ele será a morte pelas mãos de sua própria comunidade. Aos poucos vemos aquele homem imponente do começo do espetáculo se apequenar até chegar à situação final em que, resignado, aceita ser o cordeiro a ser imolado. Seu Schill não tem desespero. Ele simplesmente desistiu de lutar porque compreendeu que o mundo é uma roda viva e que alguns serão inevitavelmente devorados por ela.
É o riso da solidão que ela sabe ser irreparável. Ela destrói Alfred Schill, seu primeiro grande amor, e mesmo que leve consigo seu cadáver para enterrá-lo num mausoléu em seu palácio, não o terá nunca. A vingança é sempre uma vitória de Pirro. E Denise Fraga sabe como mostrar esse riso amargo e triste que ela exibe como uma máscara clownesca. Tuca Andrada também nos apresenta um Schill humano, profundo, um homem que ao longo da peça desperta para o mal que fez no passado e para o medo do futuro. Futuro que para ele será a morte pelas mãos de sua própria comunidade. Aos poucos vemos aquele homem imponente do começo do espetáculo se apequenar até chegar à situação final em que, resignado, aceita ser o cordeiro a ser imolado. Seu Schill não tem desespero. Ele simplesmente desistiu de lutar porque compreendeu que o mundo é uma roda viva e que alguns serão inevitavelmente devorados por ela.
Todo o elenco é bom. Gostaria de assinalar o
trabalho do ator Ronis Ferreira que faz o professor. Seu personagem também se
destaca por ser a única voz sensata em meio a turba inebriada pela perspectiva
da riqueza iminente. Inicialmente ele é o porta voz da razão, do humanismo, mas
no mesmo discurso assume a fraqueza da carne e confessa sua traição. Não sem
antes nos deixar essa pérola de reflexão: “Eu tenho medo, Schill, exatamente
como o senhor teve medo. E sei, ainda, que, algum dia, chegará uma velha
senhora também para nós e que, então, se passará conosco o que, agora, se passa
com o senhor. ” A história há de nos cobrar pela infâmia.
“A
Visita da Velha Senhora” é sem dúvida um dos grandes espetáculos a se
apresentar em BH neste 2018. Pena que em temporada tão curta. E, apresentada
como tragicomédia, o que sobra no final não é o riso, mas o incômodo de toda a
situação. Um espetáculo que cai como uma luva para os tempos atuais.
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