sexta-feira, 4 de maio de 2018

Durrenmatt não acredita na humanidade


Uma cidade arruinada economicamente. As poucas fábricas que existiam fecharam, o comércio regrediu, o desemprego grassa. Não, não é uma fábula sobre o Brasil pós golpe.  Essa é a situação de Gullen, cidadezinha perdida no interior da Suíça. Outrora três ou quatro expressos paravam em sua estação antes de seguirem caminho para as principais cidades européias. Hoje os trens passam direto e só servem para marcar a passagem do tempo. Gullen vai de mal a pior a não ser que... A não ser que uma ilustre filha da cidade, Claire Waescher, ou melhor, Claire Zahanassian, multimilionária dona da Armenian Oil salve a cidade da bancarrota total. Claire saiu de Gullen aos dezessete anos. Trinta anos depois retorna coberta de ouro para orgulho de uma cidade em decadência. O trem que não parava mais por ali faz uma parada obrigatória e a grande milionária desce acompanhada por seu séquito. A cidade natal a recebe com banda de música, com faixas e cartazes. Todos os notáveis estão presentes: o prefeito, o padre, o professor, o médico e o ex-namorado. Então, no banquete que é oferecido em sua homenagem, Claire Zahanassian anuncia que doará um bilhão para a cidade sendo metade desse valor para os habitantes de Gullen. Mas há uma condição. Ela quer a morte de Alfred Schill, seu ex-namorado, pivô dos infortúnios que a lançaram no mundo, que a transformaram em prostituta (foi como prostituta que ela conheceu o velho Zahanassian que lhe transmitiu a fortuna). Num primeiro momento os grandes da cidade recuam horrorizados, mas ao longo do tempo todos cedem à tentação do dinheiro que virá e a cidade entra num vórtice de consumismo que atinge a todos, inclusive aos familiares de Alfred Schill e o resultado.... Bem, não é preciso dizer, é?

Esse é o enredo básico de “A Visita da Velha Senhora”, texto escrito pelo dramaturgo suíço Friedrich Durrenmatt (1921-1990) em 1956. E apesar da distância no tempo (62 anos) como permanece atual. O que o torna um clássico. Durrenmatt iniciou sua carreira teatral nos anos 40 escrevendo sketches para shows em cabarés e para o radioteatro que na época era muito respeitado na Suíça. Sua primeira peça, “Está Escrito”, obra de 1947, não obteve sucesso. Ele escreveria outros textos com maior ou menor impacto até a “A Visita da Velha Senhora” que é sua obra capital. O final dos anos 40 e os anos 50 foram marcados na Europa pelo aparecimento do teatro do absurdo (ou teatro existencialista como preferem alguns), cujos maiores expoentes foram Eugene Ionesco e Samuel Beckett, e pela descoberta do teatro de Brecht (cuja excursão à França no começo dos anos 50 provocou um verdadeiro terremoto). Mas onde situar Durrenmatt (se é que ele tem que ser situado em algum lugar)? Uma rápida olhada por sua obra nos levaria a crer que ele seria um discípulo de Brecht. Sim, sua obra revela várias influências da dramaturgia brechtiana, mas ao contrário do bardo alemão, Durrenmatt não é otimista. O teatro não serve aqui para uma transformação da consciência rumo à luta por um mundo mais justo. O que sobra ao fim da peça é um gosto amargo na boca. O que Durrenmatt faz é nos mostrar num triste espelho o horror de nossa solidão, de nossa condição de filhos de Caim. A Vida é dura, é como uma corda bamba estendida sobre um abismo e não há rede de segurança lá abaixo. Curioso que essa percepção amarga da existência venha de um filho de pastor protestante (o filósofo pessimista Emil Cioran também era filho de um padre ortodoxo).

O espetáculo dirigido por Luiz Villaça tendo no elenco Denise Fraga e Tuca Andrada não decepciona, pelo contrário. É uma lufada de ar puro em tempos tão empestados, ou como disse Fraga ao final do espetáculo: Esses tempos esquisitos que vivemos. Experimente trocar as personagens do enredo por outras da política nacional sem se esquecer de substituir a doação de um bilhão pela disputa pelo pré-sal para entender a importância do espetáculo nos dias atuais.

A montagem de Villaça revela toda a verve amarga de Durrenmatt dispondo em justa medida os elementos cômicos e trágicos, sem olvidar do lado brechtiano do texto revelado no uso da música, no envolvimento da plateia que é tomada ora como testemunha, ora como partícipe da “farsa de Gullen”, dos cenários não naturalistas, da presença quase contínua de toda a trupe em cena mesmo quando não participam diretamente da ação. Denise Fraga e Tuca Andrada se destacam. Fraga nos dá uma deliciosa Clara Zahanassian, uma mulher trágica que não perde o senso de humor, que sabe rir do próprio destino. Destino que ela própria, aliás, forja como uma moira. Claro que ela ri do alto de sua fortuna, do dinheiro que a permite transformar o mundo em um bordel. Mas que bordel é esse? Ao realizar o velho sonho de se casar na igrejinha de Gullen (com seu nono marido) e de levar consigo o cadáver de Alfred Schill como o grande troféu de sua vingança ela obtém grande satisfação. Mas não há felicidade. Seu ato visa destruir o passado, mas qual futuro constrói com isso? Transformar o mundo em um bordel por força do seu dinheiro não a torna menos desgraçada que os outros reles mortais, pelo contrário, a iguala ao mais desprezível de seus carrascos. A felicidade é impossível quando a mola de tudo é o ressentimento e a vingança não repara o passado, mas compromete o futuro.  O riso de Clara Zahanassian no final das contas é um riso triste, amargo. 

É o riso da solidão que ela sabe ser irreparável. Ela destrói Alfred Schill, seu primeiro grande amor, e mesmo que leve consigo seu cadáver para enterrá-lo num mausoléu em seu palácio, não o terá nunca. A vingança é sempre uma vitória de Pirro. E Denise Fraga sabe como mostrar esse riso amargo e triste que ela exibe como uma máscara clownesca. Tuca Andrada também nos apresenta um Schill humano, profundo, um homem que ao longo da peça desperta para o mal que fez no passado e para o medo do futuro. Futuro que para ele será a morte pelas mãos de sua própria comunidade.  Aos poucos vemos aquele homem imponente do começo do espetáculo se apequenar até chegar à situação final em que, resignado, aceita ser o cordeiro a ser imolado. Seu Schill não tem desespero. Ele simplesmente desistiu de lutar porque compreendeu que o mundo é uma roda viva e que alguns serão inevitavelmente devorados por ela. 

Todo o elenco é bom. Gostaria de assinalar o trabalho do ator Ronis Ferreira que faz o professor. Seu personagem também se destaca por ser a única voz sensata em meio a turba inebriada pela perspectiva da riqueza iminente. Inicialmente ele é o porta voz da razão, do humanismo, mas no mesmo discurso assume a fraqueza da carne e confessa sua traição. Não sem antes nos deixar essa pérola de reflexão: “Eu tenho medo, Schill, exatamente como o senhor teve medo. E sei, ainda, que, algum dia, chegará uma velha senhora também para nós e que, então, se passará conosco o que, agora, se passa com o senhor. ” A história há de nos cobrar pela infâmia.

“A Visita da Velha Senhora” é sem dúvida um dos grandes espetáculos a se apresentar em BH neste 2018. Pena que em temporada tão curta. E, apresentada como tragicomédia, o que sobra no final não é o riso, mas o incômodo de toda a situação. Um espetáculo que cai como uma luva para os tempos atuais.



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