Vamos falar de teatro?
Já disse tempos atrás que não sou crítico de teatro. Acho mesmo um pouco incompatível a profissão de ator atuante com a de crítico. Mesmo assim vou inaugurar agora uma sessão em que vou me permitir falar do que vejo nos palcos. Do que vejo e principalmente do que gosto.
Curitiba
Em 2018 foi a quinta vez que fui a Curitiba por causa do festival, um dos mais importantes do país. Desta vez estive na equipe do espetáculo "Esquecidos e Recordados", dirigido por Igor Ayres, o mesmo diretor de meus dois últimos trabalhos "Boca de Ouro" e "Dois na Pista"". Somos uma equipe. A dramaturgia do espetáculo é de Luiz Drumond que faz sua estréia na escrita cênica. O trabalho que envolveu pesquisa sobre a situação dos moradores de rua, fala exatamente sobre essa parte da sociedade que pagamos para esquecer. "Esse grande zoológico humano para o qual compramos ingressos para não ver", conforme diz uma das personagens, exatamente a vivida por Luiz Drumond que também é ator no espetáculo. Ele divide a cena com Horácio Martins e Ana Justino. O trio tem uma química interessante o que rende cenas muito boas e uma cumplicidade cênica bem saudável. Ana Justino, uma linda atriz negra, se destaca com sua moradora de rua, a que sofre os piores maus tratos desse arremedo de sociedade em que vivemos. Imagine ser mulher, negra e moradora de rua? O texto tem força (e como poderia não ter falando do que fala?), mas talvez se ressinta um pouco de querer falar muitas coisas num tempo reduzido.
O que é aliás, compreensível em quem começa a escrever para teatro especialmente se pretende fazer um teatro mais político, mais engajado em questões sociais. Também há soluções da montagem que não chegam muito em mim, como o uso de máscaras em determinadas cenas, por exemplo. Destaque porém, para a cena em que os três atores manipulam marionetes simulando um estupro. Uma cena perturbadora. O espetáculo se apresentou no Mini-Guaíra, dentro do complexo cultural do Teatro Guaíra que tem outros dois espaços. Uma espécie de Palácio das Artes de Curitiba, dentro do Fringe que é a mostra paralela do festival. O público não foi lá essas coisas, aliás tenho várias ressalvas a participação no Fringe. O Festival de Curitiba acontece durante treze dias, mas são apresentados mais de duzentos espetáculos vindos de todos os lugares do país. A capital paranaense deve ter metade da população de BH, mesmo com os turistas que chegam é difícil encontrar um público satisfatório para tantos espetáculos. O que lota e esgota são os grandes espetáculos da mostra oficial, especialmente os do eixo Rio-São Paulo. Alguns espetáculos do Fringe conseguem emplacar, mas a maioria fica às moscas. Mesmo assim o festival só aumenta de tamanho. Vá entender.
O que é aliás, compreensível em quem começa a escrever para teatro especialmente se pretende fazer um teatro mais político, mais engajado em questões sociais. Também há soluções da montagem que não chegam muito em mim, como o uso de máscaras em determinadas cenas, por exemplo. Destaque porém, para a cena em que os três atores manipulam marionetes simulando um estupro. Uma cena perturbadora. O espetáculo se apresentou no Mini-Guaíra, dentro do complexo cultural do Teatro Guaíra que tem outros dois espaços. Uma espécie de Palácio das Artes de Curitiba, dentro do Fringe que é a mostra paralela do festival. O público não foi lá essas coisas, aliás tenho várias ressalvas a participação no Fringe. O Festival de Curitiba acontece durante treze dias, mas são apresentados mais de duzentos espetáculos vindos de todos os lugares do país. A capital paranaense deve ter metade da população de BH, mesmo com os turistas que chegam é difícil encontrar um público satisfatório para tantos espetáculos. O que lota e esgota são os grandes espetáculos da mostra oficial, especialmente os do eixo Rio-São Paulo. Alguns espetáculos do Fringe conseguem emplacar, mas a maioria fica às moscas. Mesmo assim o festival só aumenta de tamanho. Vá entender.
Tive o privilégio de ver três grandes espetáculos da mostra oficial. O excepcional "Suassuna: O Auto do Reino do Sol", da Cia Barca dos Corações Partidos e com direção de Luiz Carlos Vasconcelos, seguramente um dos melhores espetáculos que vi nos últimos anos. De uma simplicidade, de um despojamento, mas de uma poesia assustadora. Uma trupe genial de bons atores, bons cantores e bons músicos e uma direção precisa do Luiz. Um texto empolgante de Bráulio Tavares que nos remete de imediato ao universo de Ariano Suassuna e ao mesmo tempo às próprias fontes de sua obra, como as tramas medievais que inspiraram inclusive Shakespeare. Há duas histórias correndo no Auto do Reino do Sol, a primeira é de uma trupe de circo que viaja pelo sertão e almeja chegar a Taperoá e a segunda é a história de amor de dois jovens pertencentes a duas famílias rivais que fogem para se encontrar e acabam fugindo com o circo. As canções são de Chico César, Beto Lemos e Alfredo Del Penho. O espetáculo até que começa meio morno, uma canção aqui, outra dois minutos depois e eu pensei "Vou ver um show de música?" Mas não, era só um aquecimento para oque nos seria presenteado.
Sim, a expressão é essa, presenteado. Um presente que nos foi dado. E assistir a um espetáculo desses num momento tão difícil. Foi exatamente no final de semana da prisão de Lula e de sua ida para a masmorra de Curitiba. E aí nos vem um espetáculo que fala do sertão-mar desse país mestiço, desse país caboclo que se recusa a se enxergar como tal. Encontrei com o crítico Miguel Anunciação na saída do teatro e fomos tomar uma cerveja e ele comentou como ficou impressionado com a reação da platéia. "Parecia que estávamos num teatro da Paraíba e não do Paraná". É que o nordeste é universal meu caro Miguel. É que mesmo com os tempos toscos que estamos vivendo ainda há espaço para a beleza, para apreciarmos a beleza. Encontrei com os atores e com o diretor no Café do Teatro e lhes disse sem vergonha de parecer piegas: Um espetáculo que não só lavou minh'alma, mas também a exaguou e passou amaciante. E o cavalo? Ou Melhor, e o ator que faz um cavalo? Genial.
Sim, a expressão é essa, presenteado. Um presente que nos foi dado. E assistir a um espetáculo desses num momento tão difícil. Foi exatamente no final de semana da prisão de Lula e de sua ida para a masmorra de Curitiba. E aí nos vem um espetáculo que fala do sertão-mar desse país mestiço, desse país caboclo que se recusa a se enxergar como tal. Encontrei com o crítico Miguel Anunciação na saída do teatro e fomos tomar uma cerveja e ele comentou como ficou impressionado com a reação da platéia. "Parecia que estávamos num teatro da Paraíba e não do Paraná". É que o nordeste é universal meu caro Miguel. É que mesmo com os tempos toscos que estamos vivendo ainda há espaço para a beleza, para apreciarmos a beleza. Encontrei com os atores e com o diretor no Café do Teatro e lhes disse sem vergonha de parecer piegas: Um espetáculo que não só lavou minh'alma, mas também a exaguou e passou amaciante. E o cavalo? Ou Melhor, e o ator que faz um cavalo? Genial.
A arte nos salva. Quando tudo acabar ainda teremos a arte. A arte e o amor.
Muito confete, né? Eu sou assim com as coisas que gosto.
Tom na Fazenda é outro espetáculo do Rio de Janeiro. (O Auto do Reino do Sol também) E igualmente multipremiado. Vemos também um despojamento, uma simplicidade da encenação (simplicidade é tudo), mas não se engane. Há um jogo perigoso sendo mostrado. Há um delicioso jogo perigoso onde o que conta é o texto, de Michel Marc Bouchard (mas poderia ser de Sam Shepard de quem ainda vou montar alguma coisa) e o jogo dos atores. Tom é um publicitário e seu namorado morreu. Ele vai para a fazenda da família do namorado para o enterro. A mãe do namorado nunca havia ouvido falar dele e, evidentemente não sabe nada da homossexualidade do filho morto. Mas há outro filho, um jovem truculento com o qual Tom inicia um jogo que...Melhor não falar mais nada, afinal o espetáculo pode vir a BH. Um espetáculo denso, um texto muito instigante e atuações impecáveis, especialmente as de Armando Babaioff que faz Tom e de Gustavo Vaz que encarna o irmão. As outras atrizes do elenco tem menor destaque, afinal a trama principal é o jogo dos dois homens, mas cumprem muito bem o papel. O despojamento dos cenários, apenas uma grande lona que cobre todo o palco, uma lona suja que vira poeira, que vira barro, que vira o lôdo em que estão todos mergulhados naquela fazenda, das relações de amor, ódio e engano que permeiam a trama. Não é preciso mais que uma lona e alguns baldes para construirmos uma fazenda. Essa é a magia do teatro. O que importa é o ator inteiro no palco, com sua voz, com seu corpo, com sua inteligência e sentimento. O resto é fru-fru.
Denise Stoklos em extinção foi o terceiro espetáculo da mostra oficial que vi. Denise Stoklos dispensa comentários. É uma diva. Uma atriz completa. Ela utiliza o texto de Thomas Bernhard para fazer uma reflexão sobre sua vida, sobre sua profissão, sobre sua trajetória. Como já tinha visto outros trabalhos dela confesso que esse não foi o que mais me tocou apesar do tom autobiográfico que o marca, mas é sempre uma alegria ver uma artista do calibre dela em cena. É muito bom ver a arte reagir ao estado de coisas que vivemos nesse país, nesse planeta, no momento presente. "Em Extinção" é um espetáculo político. Ao falarmos de nós, de nosso corpo, de nossos afetos, estamos fazendo política. Ao nos darmos ao luxo de criticarmos nossa própria criação, nossa própria trajetória, colocamos uma espécie de espelho para que a sociedade também se olhe e se critique. Denise de move num cenário em ruínas, restos de um incêndio, a nos lembrar tanto uma carvoaria, como uma cidade em ruínas. É isso. Ela faz um balanço de si como se o próprio mundo ao redor fosse chamado a fazê-lo. As ruínas são o que sobrou do velho mundo e sobre elas temos a oportunidade de edificar um novo mundo. Em Extinção é uma bela metáfora do presente.
Três espetáculos de uma mostra tão grande, mas que me deram uma pílula do que vem sendo pensado e produzido no teatro brasileiro. Um teatro forte, questionador e humano, demasiado humano.
Também tive o privilégio de ver um trabalho bem interessante no Fringe: "Rapsodos", que nada mais é que a dramatização de fragmentos da Íliada e da Odisséia. Três ótimos atores e um trabalho sobre a palavra de dar inveja. Uma aula que deixaria muito satisfeito ao grande mestre Italo Mudado se estivesse vivo.
Na próxima coluna vou falar sobre Preto, espetáculo que também estava em Curitiba, mas que o vi em BH no CCBB.
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